Ficha de Leitura Casiano Floristan
Paulo Azevedo Ficha de leitura
Casiano Floristan
Teologia Prática Teoria e prática da ação pastoral
I A Praxis de Jesus
Sob a exegese atual, os Evangelhos não são documentos ou relatos biográficos de Jesus, mas antes provas ou confissões de fé nascidos sobretudo a partir da experiência da Páscoa das primeiras comunidades.
Em lugar de ser históricas, as Escrituras são proclamações de narrativas partilhadas em comunidade, para manter viva a presença do Ressuscitado.
A fé cristã depende da representação que se faz de Jesus Cristo, centro da vida cristã que, e que resulta da ação pastoral.
A partir da segunda metade do século XX podemos identificar 2 modelos de ação pastoral:
- Mais conservador, descendente, dedutivo e dogmático
A submissão aos ditames de Deus, veem no sofrimento um modo de expiação dos pecados, justificando a resignação, inclusive das classes desfavorecidas em relação à dominantes;
- Mais progressista, ascendente, indutivo e genealógico
Valoriza a dimensão humana de Jesus, tal como os discípulos a procuraram replicar na sociedade, na sua vertente práxica, de fazer o bem evangelizando, não havendo uma glorificação da morte, mas sim uma paixão pela justiça.
A representação de Jesus Cristo na cristologia popular traduziu-se, durante séculos, numa fé que:
a – assentava numa leitura literal da bíblia, em particular dos milagres;
b – Jesus é visto como a aparência de Deus;
c – valoriza-se o sofrimento de Jesus, que padeceu pelos nossos pecados;
d – Jesus expia os nossos pecados e dá-nos o céu;
A representação de Jesus Cristo assente na sua práxica pastoral, assente nos seus atos e ditos, e não tanto em facetas dogmáticas como ele ser o Messias, o Salvador e o Filho de Deus, traduz-se numa fé que:
a – desvalorização da faceta sacerdotal ou templária de Jesus;
b – valorização de um Jesus que ensina, fala e não o que escreve, pois é um mestre;
c – Jesus possui uma dimensão de profeta escatológico, o profeta do reino.Dimensões da práxis de Jesus
- – Vivência do reinado de Deus
- Não se trata de uma vivência meramente espiritual, mas humana, biológica e material;
- vê no arrependimento uma conversão a Deus e não como inversão de ideias;
- – Relação com os discípulos
- A escolha dos doze discípulos ante-pascais constitui a formação de uma local teológico no qual se erigirá a igreja;
- Seguir Jesus acarreta uma enorme exigência e entrega, não se trata de assumir o papel de um aluno e aprender, mas sim seguir;
- Espírito comunitário, por isso são sempre escolhidos de dois em dois;
3 – Relação com Deus
- Jesus é o sacramento do Pai no mundo, é manifestação viva do reinado de Deus, que depende inteiramente dessa relação;
4 – Práxis assente em ações
a) Os milagres, pela sua natureza mágica e transnatural, resultam m reações de:
- aceitação, sobretudo pela pessoas mais simples;
- rejeição, pelo seu caráter acientífico;
- valorização, pela sua dimensão simbólica.
b) O perdão, como meio de reinserir na comunidade, entendida como reino de Deus, o marginalizado.
c) A refeição comunitária, sendo o corpo de Cristo sinal da união, com quem quer que seja, sem receio da bênção do pão.
5 – Níveis de Práxis
- Económico, pois implica partilha e entreajuda no interior da igreja;
b) Político, num sistema que proteja os excluídos e promova a justiça;
c) Ético-social, com a promoção de valores para a superação das injustiças e males.
II A Ação Pastoral da Igreja Primitiva
A origem da ação pastoral, sobretudo a partir de São Paulo, enferma alguns desconhecimentos, em particular entre os cruciais anos trinta e cinquenta, pelo que é necessário deduzir alguns critérios axiológicos, contextualizando-os no mundo social e histórico em que a Igreja apareceu, a saber:
- à missão pastoral (serviço da palavra);
- à adoração (Sacramental);
- à comunidade (serviço de comunhão );
- cristãos na sociedade ( compromisso de serviço ).
1 – Momento histórico e espaço humano da igreja primitiva
- Momento histórico – os escritos do NT situam-se num período posterior ao dos apóstolos (70-100dc)
- Espaço – Palestina, Antioquia, Éfeso, e Corinto, Roma, Síria e Egito.
- Cultura – Helenístico-romana (forte componente política e filosófica) e judia/palestiniana
A Palestina era um pequeno país, predominantemente agrícola e piscatório, subjugado a Roma, onde havia diversas seitas e aguardavam o Messias
Religião judaica - A sinagoga tinha um papel importante na vida religiosa e nacional de Israel. O ano litúrgico desenrola-se de sábado a sábado, festejam a Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos. Praticam a a oração, a esmola e o jejum e praticam o rito da circuncisão. Forte proselitistmo. Grande valorização da Lei (Tora)
2 – A missão evangélica
O Messias morreu pelos nossos pecados, como anunciado
as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, ele apareceu para
Pedro e depois aos Doze "(1 Cor 15,3-5). O Kerigma evangélico, anunciado por Paulo, não é um mero facto histórico, pertence ao mundo da fé, e só pode ser anunciado com a pregação.
as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, ele apareceu para
Pedro e depois aos Doze "(1 Cor 15,3-5). O Kerigma evangélico, anunciado por Paulo, não é um mero facto histórico, pertence ao mundo da fé, e só pode ser anunciado com a pregação.
Esta anunciação, proclamação e testemunho deve ser disseminada pelo espaço público, na esperança da salvação.
3 – A celebração litúrgica (serviço sacramental)
- O culto como reunião
A liturgia não é entendida como mero diálogo individual com Deus, mas sim como comunhão com o outro na celebração do Deus vivo
- O partilhar do pão é uma comunhão com o outro e com Cristo.
- O batismo tem um significado profundamente cristão, pois representa a receção do espírito.
- O perdão dos pecados, depende da penitência e da confissão, como porta de abertura à reconciliação com a comunidade.
- A unção dos doentes, a ajuda dos debilitados, constitui uma prática à imagem de Cristo, tal como São Tiago com os presbíteros – caridade.
4 – A comunidade eclesial (serviço de comunhão)
a) A Igreja do Senhor tem como função de convocação a Deus e de congregação ao outro.
b) a primeira comunidade cristã como apologia, comunhão fraterna e partilha do pão.
c) CARACTERÍSTICAS DOS PRIMEIROS GRUPOS CRISTÃOS
- estrutura doméstica e fraternal
- acolhe todo o tipo de convertidos, em particular probres
d) diversos conflitos surgem, nomeadamente por causa da língua
e) congregações surgem nas cidades, como Jerusalém, Antioquia, Corinto, Macedónia, Roma e Ásia menor;
5 – Influência da propagação cristã na comunidade
a) Personificação de uma ação baseada em valores, em que o mais importante não é algo de material, mas sim transcendente;
b) início das perseguições, designadamente por pretenda incitação à subversão, por inobservância das regras sacerdotais/dos templos;
c) Movimento de guetização e, inversamente, de expansão, até à proteção (sec.II)
III A Ação Pastoral na História da Igreja
Divide-se por alguns períodos, relativamente delineados:
1- Império Romano (II-III) - À luz do Novo Testamento, a Igreja está edificada no mundo pelo Espírito de Deus e do exercício dos vários serviços e carismas da comunidade dos fiéis;
Sob a imagem de uma virgem, a Igreja aparece como guardiã e protetora da fé, sendo Cristo fonte das suas possibilidades e deveres;
O centro da Igreja dos primeiros três séculos reside no domingo, na assembleia eucarística, sendo o resultado de uma profunda consciência de Igreja como união;
Definem-se hierarquias sacerdotais: apóstolos, profetas e mestres, episcopos, sacerdotes e diáconos;
2- Época Patrística (IV-VII) – O cristianismo torna-se a religião oficial do estado;
Consolidam-se as compilações litúrgicas com Hermas, Santo Agostinho ou Ambrósio de Milan;
3- Época medieval (VIII-XV) – apesar da evolução, alguma estagnação - Cisma do Oriente;
Hierarquia até ao Papa (ex. Gregório VII);
Distinção da eclesiologia clássica (de matriz escolástica) da de congregação ou protestante;
Câmbios de teologias, em consonância com alterações históricas e sociais;
Multiplicação dos conflitos (axiomáticos) entre vetores de reflexão teológica;
Clericalização da Igreja e sacralização da sociedade
4 – Ação pastoral da igreja na reforma e contra-reforma (XVI-XVII)
Reformas diversas, em simultâneo com uma relativa estagnação, sendo a mais radical a de Lutero (95 teses em 1517);
Crítica no interior da igreja – resposta do Concílio de Trento (1545-1563) - afirma a transmissão eclesial da Palavra revelada, a estrutura sacramental da justificação, a instituição divina dos sete sacramentos e a constituição hierárquica da Igreja, em função do ministerium verbi et sacramentorum;
Roberto Belarmino (1542-1621) define a igreja como a sociedade dos homens unidos na profissão da verdadeira fé, a comunhão dos mesmos sacramentos e sob o governo dos legítimos pastores, principalmente do único vigário de Cristo sobre a Terra, o pontífice romano.
Consolidação da dimensão sociológica da Igreja;
5 – Ilustração e Liberalismo(XVIII e XIX)
Reajustamentos, em parte por causa da proliferação de outras civilizações e das permanentes convulsões sociais;
Estagnação da igreja em torno da conceção tridentina da sacralidade, numa tentativa de abstratização, estagnação e escriturização da igreja, mais assente numa reação à reforma do que numa preocupação de desenvolvimento e aproximação à sociedade;
Valorização catequética da pedagogia em detrimento do conteúdo;
Esteticização barroca das igrejas;
Sobrevalorização da hierarquia, das leis canónicas e da autoridade do magistério.
6 – Primeira metade do séc. XX
Face ao proliferante agnosticismo e imanentismo, torna-se necessário recuperar o caráter transcendente e sobrenatural da fé, do dogma e da igreja;
7 – Segunda metade do século XX
Renovação - combate ao relativismo e aos fundamentalismos;
Concílio Vaticano II (1961-65) – resultou em 4 constituições, 9 decretos e 3 declarações, de fidelização ao Senhor;
Os acontecimentos concretos do mundo devem ser entendidos à luz da palavra de Deus e tidos em conta pela igreja, enquanto sinais que obrigam a uma resposta e reação – exigência de uma igreja mais ativa, interventiva e respondedora da evolução da humanidade, da ciência à política.
IV História da teologia pastoral
1 – Traços gerais
A partir do segundo milénio vai-se consolidando a designada teologia prática (Pedro Canisio - 1521-1597), centrada no trabalho pastoral, na prática da confissão, em suma, na relação do prelado e dos padres da igreja com os diocesanos;
Em 1774, mediante o decreto real de María Teresa de Austria (1740-1780), passa a constituir uma disciplina do Plano de estudos eclesiásticos;
1805 – primeiro manual de prática pastoral em Espanha, L.A.Marim;
Vertentes comuns - o dever do ensinamento, da administração dos sacramentos e da edificação do governo;
Vertentes diferenciadas: catequética, homilética, ascética, retórica, litúrgica e rubricas.
2 – Evolução da teologia pastoral católica
a) conceção pragmática, não teológica – premente séc. XVIII/XIX, não como instrumento especulativo, mas como protetor do estado;
b) conceção bíblica e histórico-salvífica – reação ao antropocentrismo romântico alemão (Kant, 1784); sacerdote ministro de Cristo, continuador da sua obra;
c) conceção eclesiológica – coadunada com a evolução da resposta protestante e da ciência, a teologia pastoral deve estudar todos os aspetos que influenciam – direta ou indiretamente – a igreja;
há uma preocupação em conferir cientificidade ao discurso teológico, que se torna mais especulativo e articulador da realidade;
A. Graf (1841) a conceção científica da igreja auto-edifica-se visando o futuro.
d) conceção clerical – perda da preocupação especulativa ou científica, valorização da dimensão prática – normas, leis e regras canónicas de administração do ofício clerical.
3 – Evolução da teologia pastoral protestante
a) Lutero – centra a prática pastoral na experiência da fé e de pregação da palavra, sem especulações heréticas;
b) Fr. Schleiermacher – teologia (sistemática, histórica e prática) conduzida pela igreja e não por governo eclesiástico;
c) Depois de Vaticano II, há uma maior preocupação com a realidade social, e não tanto na experiência de fé, consolidação da ciência da prática eclesial;
4 – Renovação da teologia pastoral católica Séc XX
a) a comunidade cristã não é um recetáculo passivo do pastor, cabe-lhe um papel ativo na edificação do corpo de Cristo;
b) teologia pastoral como doutrina teológica sobre as formas de ação da igreja (F.X. Arnold, 1942);
c) K. Rahner – Manual de teologia pastoral - Teologia Prática da Igreja no presente – (1964-72) – teologia como ciência de autorrealização da igreja – objeto material – à luz teológica da situação atual da igreja e do mundo – objeto formal.
Paulo, transcreva os seus comentários no blogue, por favor.
ResponderEliminarDificulta muito a reflexão ter de ir a uma outra página para ler o que escreveu, com a consequente perda de discussão.
Obrigada Paulo por transcreveres para aqui a tua síntese.
ResponderEliminarApesar de um pouco longa, a forma como organizaste a informação facilita a leitura a e compreensão dos temas abordados por Casiano Floristan. No entanto, deixo-te aqui um pequeno conselho, tenta resumir um pouco mais! Bom trabalho...