Seguindo o evangelho de João (1:1-4), No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus e, neste paradigma, a ação da Igreja deve ser norma e constituir tradição, ou não lhe coubesse a obra de ordenar o mundo em vista ao Reino.
Ora, tal obra tem na própria ação
de Cristo o seu referencial primordial, sua origem e sentido, mas como pode a
Igreja repercutir essa ação? É neste contexto que devemos falar em modelos e
critérios. Os primeiros são, na definição
de Floristan, projetos operativos
ou planos concretos de atuação que relacionam de um modo dinâmico todas as
tarefas que intervêm na práxis, os segundos são itens, modos ou princípios de
continuação, concretização e incorporação desses modelos.
Para uma melhor compreensão da
sua articulação, cruzemos esses dados no seguinte quadro:
|
↓ Critério
|
Modelo →
|
TRADICIONAL
|
COMUNITÁRIO
|
EVANGELIZADOR
|
LIBERTADOR
|
|
Princípio teândrico de Deus
|
Centrado na liturgia
|
Centrado na comunidade
|
Consolidar o plano de Deus
|
Valorização da individualidade e
liberdade
| |
|
Princípio sacramental
|
sacramento formal como superação do dualismo
(radical)
|
Tradição – vida comunitária como
corporização ação Cristo
|
Autenticidade comunhão
|
Conceção sacramental da eclesiologia
consagrada na LG; rituais
entendidos numa perspetiva libertadora
| |
|
Conversão
|
Espiritualidade; necessidade de
libertação do corpo
|
Relação com o outro, prática concreta e
integral
|
Inversão de um pseudocristianismo
proliferante
|
Necessidade de uma transformação
pessoal
| |
|
Historicidade
|
Desvalorizada
|
Valorizada – CVII
|
Resposta à secularização
|
Necessidade adaptação salvação ao
contexto
| |
|
Universalidade
|
Garantida pela estrutura piramidal da
Igreja
|
Conquistada face à diferença (por ex.,
outras igrejas/comunidades); inversão da hierarquia da Igreja
|
Evangelização ou reevangelização em
torno da Unidade da Igreja numa pastoral de conjunto
|
Cada cristão deve assumir-se como um
modelo de salvação (instauração do Reino)
| |
|
Sinais dos tempos
|
Canónica rígida; cristianismo social consolidado
|
Efervescência social, política e
científica; crise religiosa
|
Distinguir o traço profético do mundano
|
Necessidade de modelos diferenciados de
atuação de acordo com características culturais particulares
| |
|
Diálogo
|
Passividade leigos, recetáculo da Palavra
|
Intra e extra-eclesial, intra e
extra-comunitário
|
Assente na criatividade pastoral –
grande responsabilização do clero como modelo apologético
|
Necessidade de uma transformação
sociopolítica de modo a configurar a institucionalização da Igreja
| |
|
Encarnação
|
Paróquia plataforma salvação
|
Valorização do mistério de Deus na vida
do povo de Deus
|
Concretização de um plano de Salvação
no mundo
|
Valorização da componente profética e salvífica
do anúncio
| |
|
Missão
|
Combate heresia/pecado
|
Combate à exclusão, desigualdade, solidão,
diferença, etc.
|
Promoção de movimentos apostólicos
|
Preocupação com os desfavorecidos;
valorização da missão catequética
| |
Conclusão: Quer modelos, quer
critérios, constituem instrumentos orientadores da atuação pastoral.
Independentemente das suas virtudes, não deixam de ser meios para concretizar a
vivência cristã. Este é o elemento basilar que não possui qualquer alternativa,
uma vez que ele é único, autossuficiente e inegável. Qualquer modelo estanque
tenderá à sua autodestruição, o mesmo acontecendo com outro demasiado diluído.
O melhor será aquele que melhor responder às tendências e necessidades do
momento, sem descurar o que é trans-histórico e transcendente.