quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Porquê o Vaticano II?


 
Quando o Papa João XXIII pré-anunciou o 2º Concílio do Vaticano, em Janeiro de 1959, surpreendeu tudo e todos, por não ser claro qual o seu propósito; quando muito, havia um pano de fundo, a Pastoral, em particular no respeitante às relações: a relação sacramental da Igreja a Deus – Lumens Gentium -, a relação com o mundo moderno – Gaudium et spes -, com as outras comunidades eclesiásticas – Unitatis redingratio -, com as outras crenças – Nostra aetate -, e a relação com o outro, em particular ao nível da liberdade religiosa – Dignitatis humanae.
Todavia, podemos especular que urgia realizar uma reflexão, não tanto teológica ou dogmática, mas sobretudo práxica, em particular atendendo às enormes mudanças e cataclismos surtidos no século XX, das ciências sociais às físicas, da política à economia, da sociedade à individualidade, da Ilustração aos mentores da suspeita - tudo estava a mudar, e muito depressa, o homem aprestava-se a pôr o pé na lua e a Igreja Católica Romana e Apostólica sentia que, a qualquer momento, os seus alicerces seriam abalados.
Tal, de algum modo, acabou por se verificar: ateísmo, deísmo, fundamentalismo, secularização, laicização, gnosticismo ou sectarismo são facetas de um movimento que, em meados do século XX, conheceram imparável ascensão e, a compor o ramalhete, o aproveitamento político da fé pelas ditaduras emergentes afetaram definitivamente a imagem e a reputação da Igreja e, por inerência, da própria religião.
A reflexão – que só terminou na 4ª sessão, em 65 – acabou por dar os seus frutos, na consciência de que o mundo tinha mudado e de que a Igreja – cuja força residiu, em grande parte, ao longo dos séculos, na sua estabilidade e resistência à mudança – tinha de saber realizar uma leitura contextualizada da marcha do povo de Deus. Uma nova pastoral, uma nova história, uma nova realidade, um novo espírito e uma nova cultura.
Mas a fundamentação teológica não foi fácil porque, precisamente, a vertente mais tradicional – de raiz escolástica, tomista e doutrinal – opunha-se à vertente renovadora, encabeçada por reformistas como Rahner, Schillebeeck ou Lubac.Ver a realidade como um lugar teológico, o tempo como um horizonte de sentido e a relação com o mundo – GeS – como uma dinâmica permanentemente interpeladora, levou a uma reflexão teológica onde a práxis da igreja para com o seu povo se renovou e se colocou num novo horizonte.
Se essa resposta – bem vistas as coisas, uma faceta comum aos concílios, o seu caráter reativo – está à altura da volatilidade do mundo contemporâneo, eis uma questão em aberto, e que só Deus e o futuro revelarão.      

 

4 comentários:

  1. Ora aqui está uma análise sintética e esclarecedora do que foi o Vaticano II!

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  2. Concordo com a Célia, resposta esclarecedora para o porquê do Concílio do Vaticano II.

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  3. "eis uma questão em aberto, e que só Deus e o futuro revelarão." - Gosto da conclusão!
    Façamos por isso!

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