quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Ação eclesial na Paróquia de Vila do Conde


A dimensão essencial da ação da Igreja reside, por um lado, na prática dos clérigos e, por outra, na intervenção dos paroquianos. Estes dois aspetos, intrinsecamente indissociáveis, constituem o âmago da ação pastoral, condição sine qua non da corporização de Cristo no tempo concreto em que o Reino se consubstancializa.

 Para o percebermos, devemos ser capazes de identificar sinais evangelizadores dessa prática e que são de ordem: do Serviço, com várias iniciativas visando a caridade, de que o banco alimentar é um exemplo; da Koinonia, com enfâse na comunicação, como se pode constar no site http://paroquiadeviladoconde.pt/# mas, também, na própria liturgia, onde toda a prática é acompanhada por um Powerpoint num Datashow onde aparecem as letras das canções cantadas ou o texto do credo, entre outros, permitindo a todos, em particular aos mais novos, acompanharem o que está a ser dito; é proclamado o martírio, quer ao nível da rica e dinâmica catequese, onde o processo evangelizador tem uma grande preocupação de visibilidade, quer ao nível sociopolítico, havendo uma boa articulação entre a atividade paroquial e camarária; esta presença no mundo tem no Padre Paulo César uma sua máxima expressão, ou não fosse ele um homem de Deus com uma completude, abertura, proximidade, humildade e pedagogia simplesmente contagiantes, um rosto no mais profundo sentido da palavra.

Podemos considerar que o modelo de ação pastoral seguido é o comunitário, marcado pela urbanidade e pela atualidade, até porque a tradição religiosa está consideravelmente enrazada nesta comunidade, de que a comunidade piscatória de Vila do Conde, e a sua célebre Igreja dos Navegantes, ou as variadas e desenvolvidas valências da Santa Casa da Misericórdia disso são exemplo. Todavia, em parte porque há uma crescente migração para o centro da cidade de jovens casais oriundos de conselhos e freguesias limítrofes que querem viver na urbe e que, como sucede nas gerações mais novas, não personificam uma prática cristã, podemos afirmar que existe uma preocupação evangelizadora que se traduz, entre outros, em batismos de jovens adultos e na procura de diálogo, designadamente através de grupos de jovens paroquiais e dos escuteiros, junto das comunidades encerradas nos novos condomínios privados que à beira-mar florescem.  

Já ao nível do Plano pastoral uma crítica deve ser feita, pois além de não ser explícito, não é claro qual é a identidade procurada na paróquia: não é claro se existe uma tendência mais conservadora ou progressista, unidirecional ou objetivante, criteriológica ou operativa; em suma, e socorrendo-nos de Sérgio Lanza, não é claro quais são os pressupostos, as dificuldades, os obstáculos ou as mais-valias que permitam prefigurar uma moção espiritual. E, portanto, esta abertura a um debate seria fundamental para uma reconfiguração da imagem da igreja e do esclarecimento do seu papel; não há, de facto, um claro diálogo teológico e hermenêutico com algumas das principais estruturas da cidade; a título exemplificativo, a biblioteca de Vila do Conde organiza, quinzenalmente, uma tertúlia sob o título “À conversa com…”, e não tenho memória de alguma vez ter sido convidada uma personalidade religiosa ou, pelo menos, para falar de religião; outras instituições da cidade, muito virada para as artes, como a pintura, a poesia, a literatura, o cinema ou o artesanato, nunca encetaram, pelo menos formalmente, diálogos temáticos sobre a problemática da religião; parece, aqui, que estamos perante uma dessas situações em que a comunidade religiosa se fecha um pouco sobre ela mesma, refugiada nos seus valores fundamentais; sem descurar esta importante vertente, é preciso trazer a Igreja para o debate, mostrar que ela é feita de pessoas concretas, combatendo problemas concretos, que a todos concerne. 


Nesta medida, o problema, como teorizou Alberich, é necessário implementar um modelo de ação pastoral que seja articulador da ação da Igreja, no mundo, para o mundo e ao serviço da igreja, que medeiem os signos evagelizadores (diaconía, koinonía, martyría e liturgia) com as formas do processo evangelizador (ação missionária, catequética  e pastoral) na assunção de que esta ação nuca será total ou plena, pois a sociedade atual não o permite. Dizendo-o por outras palavras, não podemos aspirar a ter A Igreja e toda a humanidade no Reino, diria, antes, que temos de começar a mostrar o Reino às pessoas, alertar para a sua importância e possibilidade, na esperança de que cada vez mais pessoas a ele adiram, pelo menos am parte, sobretudo ao nível da intenção e compreensão, pois é essa a realidade que vivemos hoje, a do homem cético, para o bem e para o mal, ou não fosse este o nosso tempo, em que o indivíduo é cada vez mais valorizado, abrindo portas a um modelo mais libertador, que pouco a pouco se vai afirmando.

 
 
   
     
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    

2 comentários:

  1. O grande e difícil desafio é esse mesmo: articular com o mundo atual.

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  2. Desafio que todos devem estar dispostos a realizar. Só assim será possível evangelizar!

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